Nas últimas semanas, rolando o feed do LinkedIn, vi vários textos sobre o "Teatro da Inovação". Pelo visto, finalmente as pessoas estão se dando conta de que grande parte das iniciativas de inovação corporativa foram muito faladas, geraram notoriedade e visibilidade, mas entregaram pouco ou nenhum resultado tangível.

O termo, criado por Steve Blank há mais de 10 anos, caracteriza as iniciativas feitas por organizações para parecerem inovadoras sem a intenção clara ou capacidade de transformar o negócio. É quase sempre uma mistura de marketing com RH, feita para atrair a atenção do mercado, gerar engajamento e satisfazer o conselho e os acionistas — mas desconectada da estratégia, sem metas de receita, margem, produtividade e ROI.

Em suma, é o inovar a qualquer custo — muitas vezes tendo como principal objetivo mostrar que algo está sendo feito, mas sem gerar impacto relevante.

As características do teatro

Padrões do Teatro da Inovação
Foco em iniciativas que chamam a atenção, mas raramente avançam para validação, piloto e escala.
Medidas por "métricas de vaidade": número de POCs, startups conectadas, áreas envolvidas e aparições na imprensa.
Realizadas em silos, com pouca autonomia e sem ligação com o core do negócio.
Supervalorização dos rituais e da tecnologia com um fim em si mesmo.

Agora, reflita sobre a IA

Os dados são contundentes e merecem atenção:

95%
dos pilotos de IA Generativa não entregam ROI
MIT
88%
das POCs nunca chegam à produção (apenas 4 a cada 33!)
IDC
42%
das organizações abandonaram a maioria das iniciativas de IA em 2025
S&P Global · +1.000 empresas

Em média, cada empresa descartou 46% das suas POCs antes de chegar à produção. Isso não é incompetência — é um padrão que já vimos antes, agora replicado em escala.

Quantas empresas estão mais preocupadas em chamar a atenção para o fato de estarem fazendo algo com IA do que com o resultado em si? Colocando como meta para os executivos algo tão genérico quanto "implementar IA nos processos da empresa"? Utilizando a IA para resolver problemas pontuais, desconectados do core e com baixa geração de valor? Sem uma visão clara de ganhos para o negócio e ROI — tendo como principal discussão qual LLM ou tecnologia utilizar?

Os problemas são os mesmos — agora potencializados

Os problemas relacionados à implementação da IA são em grande parte os mesmos já vividos com a inovação. Mas potencializados pela sua enorme relevância e impacto potencial.

Problemas que surgem quando a empresa sente que precisa fazer alguma coisa, mas não tem clareza da proposta de valor, não tem prioridade definida, não tem governança, gestão de demanda e muito menos um plano de implementação com capacidade de escalar.

A IA está recolocando esses problemas no palco — agora como uma superprodução com todos os ingredientes para se tornar um novo hit do teatro corporativo. A dúvida é: será uma comédia ou uma tragédia?

É hora de aprender com os erros. Antes que o próximo grande teatro comece — com ingressos vendidos, holofotes acesos e plateia entusiasmada. E sem nenhum resultado real.