Nas últimas semanas, rolando o feed do LinkedIn, vi vários textos sobre o "Teatro da Inovação". Pelo visto, finalmente as pessoas estão se dando conta de que grande parte das iniciativas de inovação corporativa foram muito faladas, geraram notoriedade e visibilidade, mas entregaram pouco ou nenhum resultado tangível.
O termo, criado por Steve Blank há mais de 10 anos, caracteriza as iniciativas feitas por organizações para parecerem inovadoras sem a intenção clara ou capacidade de transformar o negócio. É quase sempre uma mistura de marketing com RH, feita para atrair a atenção do mercado, gerar engajamento e satisfazer o conselho e os acionistas — mas desconectada da estratégia, sem metas de receita, margem, produtividade e ROI.
Em suma, é o inovar a qualquer custo — muitas vezes tendo como principal objetivo mostrar que algo está sendo feito, mas sem gerar impacto relevante.
As características do teatro
Agora, reflita sobre a IA
Os dados são contundentes e merecem atenção:
Em média, cada empresa descartou 46% das suas POCs antes de chegar à produção. Isso não é incompetência — é um padrão que já vimos antes, agora replicado em escala.
Quantas empresas estão mais preocupadas em chamar a atenção para o fato de estarem fazendo algo com IA do que com o resultado em si? Colocando como meta para os executivos algo tão genérico quanto "implementar IA nos processos da empresa"? Utilizando a IA para resolver problemas pontuais, desconectados do core e com baixa geração de valor? Sem uma visão clara de ganhos para o negócio e ROI — tendo como principal discussão qual LLM ou tecnologia utilizar?
Os problemas são os mesmos — agora potencializados
Os problemas relacionados à implementação da IA são em grande parte os mesmos já vividos com a inovação. Mas potencializados pela sua enorme relevância e impacto potencial.
Problemas que surgem quando a empresa sente que precisa fazer alguma coisa, mas não tem clareza da proposta de valor, não tem prioridade definida, não tem governança, gestão de demanda e muito menos um plano de implementação com capacidade de escalar.
A IA está recolocando esses problemas no palco — agora como uma superprodução com todos os ingredientes para se tornar um novo hit do teatro corporativo. A dúvida é: será uma comédia ou uma tragédia?
É hora de aprender com os erros. Antes que o próximo grande teatro comece — com ingressos vendidos, holofotes acesos e plateia entusiasmada. E sem nenhum resultado real.