No início, praticamente toda nova tecnologia passa por uma fase de repetição de conceitos já conhecidos — ainda presa aos mesmos modelos mentais e ao status quo.

A televisão, por exemplo, nasceu em grande medida como um rádio com imagens: nos primeiros noticiários, a nova tecnologia não mudava a lógica do formato — a TV simplesmente exibia um apresentador lendo as notícias diante da câmera e nada mais, exatamente como no rádio. A web repetiu esse movimento com o brochureware, quando empresas passaram a tratar sites corporativos como meros folhetos impressos convertidos em HTML.

Esse é justamente o comportamento que muitas empresas estão reproduzindo agora com a IA.

Em vez de repensar processos, operações e jornadas, elas frequentemente apenas automatizam o que já existia, revestindo tudo com uma camada de novidade.

Chatbots se comportam como URAs, agora com linguagem natural. Agentes — a grande "bola da vez" — são utilizados em fluxos puramente procedurais. Tarefas que caberiam em uma macro ou em um RPA passam a consumir tokens porque, afinal, a IA vai trazer maior eficiência e é preciso implementá-la.

Motor 1 vs. Motor 2

O ponto não é negar o valor de gerar automação por meio da IA. Esse é o nosso Motor 1. Entrega eficiência, acelera execução e produz retorno mais rápido.

Motor 1 · Automação
Operar melhor o presente
Eficiência, aceleração de execução e retorno de curto prazo. Necessário — mas insuficiente.
Motor 2 · Transformação
Redesenhar o futuro
Redesenha processos, revê papéis, altera a forma de decisão e cria novas maneiras de gerar valor.

O problema é quando a empresa para no Motor 1 e chama isso de transformação. Da mesma forma que jogar tudo para dentro de sistemas não é transformação digital — automatizar processos existentes com IA não é transformar o negócio.

É por isso que a discussão sobre IA precisa ser também uma discussão sobre ambidestria: operar melhor o presente sem adiar o redesenho do futuro.

A pergunta que vale fazer antes de qualquer automação

Antes de automatizar qualquer coisa
Eu ainda preciso fazer isso? Por quê?
Precisa ser feito desta forma? Que alternativas existem?
Que outras opções a nova tecnologia pode oferecer? Que não existiam antes?

É nesse deslocamento que a IA deixa de ser apenas uma nova embalagem para processos antigos e começa, de fato, a abrir espaço para um modo novo de operar.

As mesmas velhas notícias continuarão existindo enquanto as perguntas certas não forem feitas. A diferença é que agora elas custam tokens.