No início, praticamente toda nova tecnologia passa por uma fase de repetição de conceitos já conhecidos — ainda presa aos mesmos modelos mentais e ao status quo.
A televisão, por exemplo, nasceu em grande medida como um rádio com imagens: nos primeiros noticiários, a nova tecnologia não mudava a lógica do formato — a TV simplesmente exibia um apresentador lendo as notícias diante da câmera e nada mais, exatamente como no rádio. A web repetiu esse movimento com o brochureware, quando empresas passaram a tratar sites corporativos como meros folhetos impressos convertidos em HTML.
Esse é justamente o comportamento que muitas empresas estão reproduzindo agora com a IA.
Em vez de repensar processos, operações e jornadas, elas frequentemente apenas automatizam o que já existia, revestindo tudo com uma camada de novidade.
Chatbots se comportam como URAs, agora com linguagem natural. Agentes — a grande "bola da vez" — são utilizados em fluxos puramente procedurais. Tarefas que caberiam em uma macro ou em um RPA passam a consumir tokens porque, afinal, a IA vai trazer maior eficiência e é preciso implementá-la.
Motor 1 vs. Motor 2
O ponto não é negar o valor de gerar automação por meio da IA. Esse é o nosso Motor 1. Entrega eficiência, acelera execução e produz retorno mais rápido.
O problema é quando a empresa para no Motor 1 e chama isso de transformação. Da mesma forma que jogar tudo para dentro de sistemas não é transformação digital — automatizar processos existentes com IA não é transformar o negócio.
É por isso que a discussão sobre IA precisa ser também uma discussão sobre ambidestria: operar melhor o presente sem adiar o redesenho do futuro.
A pergunta que vale fazer antes de qualquer automação
É nesse deslocamento que a IA deixa de ser apenas uma nova embalagem para processos antigos e começa, de fato, a abrir espaço para um modo novo de operar.
As mesmas velhas notícias continuarão existindo enquanto as perguntas certas não forem feitas. A diferença é que agora elas custam tokens.